Foi com exclamações de alegria e muitos abraços que a Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO) recebeu a galardoada com o Prémio Camões 2021, membro daquela instituição há décadas. Ao evento de homenagem a Paulina Chiziane, no passado dia 4 de novembro, acorreram amigos, admiradores e colegas, numa sala que se encheu de alegria e aplausos durante toda a tarde. “Nós, as mulheres, estamos a dançar desde que soubemos deste prémio”, diz-lhe uma admiradora.

É com voz firme e indisfarçável orgulho que a escritora inicia a sua breve intervenção: “Sou a primeira pessoa preta a receber este prémio. Isto desperta-nos para outras reflexões: quem somos nós? Porquê agora? O meu mundo, a minha raça são finalmente reconhecidos.” Paulina é a voz do povo, a escritora que não pretende ser intelectual e que tem feito com que a história e a cultura da oralidade marquem o caminho de Moçambique. Rejeita a existência de uma única forma correta de falar português e pede a todos que não calem a sua. “O nosso país tem muitos ‘português’, porque cada um coloca uma marca sua na língua portuguesa. Mas porque é que a maior parte das coisas que se escrevem sobre africanos são escritas com o olho do outro e não com o nosso? Mesmo nós, escritores, muitas vezes escrevemos com preconceito dos nossos. Há muita autocolonização, autonegação…”, lamenta. “Os portugueses trouxeram a língua portuguesa, que eu aprendi e uso como quero; não podia deixar de trabalhar, porque o meu português não era o melhor”, sublinha, antes de terminar com um apelo, em jeito de desafio: “África, liberta-te!”

A VISÃO aproveitou a deixa, e foi precisamente por esse apelo que começou a conversa com a escritora, num final de tarde quente de Maputo, no conforto e descontração de um banco de jardim.

No final da sua intervenção, pedia: “África, liberta-te!” Paulina diz que não é uma romancista, que conta histórias. Que histórias tem África para contar? Que pedido de liberdade é esse?
Foram muitos anos de colonização, muitos anos de alienação de Portugal, e então nós tivemos a independência da terra. Mas a independência das nossas mentes, para nos assumirmos como africanos e como moçambicanos… isso ainda é um processo. O que eu digo muitas vezes é que o colonialismo português já se foi e, agora, nós continuamos colonizando-nos a nós mesmos, por querermos seguir o rigor do outro e não olharmos para dentro de nós próprios. Este é um problema muito sério em todas as esferas, e tem de haver este trabalho da parte das pessoas, de sentirem que devem ser livres. Sentir a liberdade da sua própria raça, da sua própria língua, da sua própria terra e na sua relação com o mundo. É difícil explicar isso em poucas palavras, mas creio que percebe o que estou a dizer.

Às vezes, fazemos a interpretação da nossa realidade cultural com os olhos de um europeu

Defende que há várias línguas portuguesas, que tem o seu português e destaca-se precisamente por isso, por usar muito a oralidade, parte da cultura de um povo. Como é que ela contribui para a construção da identidade? É isso que falta?
Não só. Nós temos preconceitos em relação às nossas crenças e aos nossos hábitos. Às vezes, fazemos a interpretação da nossa realidade cultural com os olhos de um europeu. Vou dar um exemplo: um antropólogo ou um escritor vem falar da cerimónia de pedir chuva aos deuses, que é uma dança nua, em que as mulheres vão para o meio da floresta e dançam nuas para pedirem ao deus da chuva. Ora, um indivíduo que cresceu num mundo dominado pelo pensamento ocidental o que vai dizer primeiro? “Ai, que imoral, deve ser feitiçaria, deve ser isto e mais aquilo…” Ele olha à distância e classifica, mas um nativo já não diz a mesma coisa. As mulheres despem-se de tudo, fazem uma oração linda e dizem: “Deus, olha só como eu estou, nada tenho para além daquilo que me deste quando nasci. Não tenho pão, não tenho água. Por favor, escuta a minha dor e manda-me chuva.” Não sei se estou a fazer perceber a diferença em relação ao indivíduo que pensa como um ocidental ou como um cristão, para logo classificar aquilo como um ato diabólico, um ato negativo – vai colocar um preconceito sobre o seu próprio povo.

Sente que o moçambicano tem um “autopreconceito”? Aquilo que apelida de “autonegação”?
É muito sério. Também ainda não houve tempo suficiente para conversarmos muito sobre o que nós somos. Vou dar-lhe outro exemplo, muito interessante: o mundo ocidental e as suas religiões olham para o corpo da mulher como um lugar de pecado. Daí que, quando se vai batizar o menino, dizem “Em nome do pai dele, do filho, que é ele, do espírito santo”, menos da mãe que o pariu, enfim… É uma filosofia de exclusão, uma visão do mundo típica do Ocidente. Caminhei muito por este país, e as mulheres do Norte são todas enfeitadas, usam maquilhagem, são lindas, todas coloridas. Não percebia porquê, mas um dia, numa conversa já mais profunda, elas diziam-me que o corpo da mulher é o lugar do sagrado. Mas como? E perguntaram-me: “De onde é que tu vens?” Nasci do ventre da minha mãe, a minha mãe, do ventre da mãe dela, e assim sucessivamente até ao princípio do mundo. Então, disseram-me: “Nós, na nossa cultura macua, celebramos o corpo da mulher, porque é dentro do seu ventre que Deus depositou as sementes da eternidade.” Ai, que romântico, que poético, que lindo! Então, o indivíduo, o negro africano moçambicano, que cresce no mundo ocidental, vai dar uma interpretação completamente diferente ao corpo. E eu estou cansada de ver artigos que só falam da beleza ou do cuidado da mulher macua e condenam isto e mais aquilo, classificam isto e mais aquilo. Não há este hábito de dialogar com a própria cultura. Nós ainda não atingimos esse nível, querida.

Já escrevi poesia, contos, ensaios, já fiz um pouco de tudo; então, se eu aceitasse ser isto ou aquilo, acho que isso ia limitar a minha liberdade. Eu gosto de vadiar

Ouvi uma entrevista sua, de há cerca de 20 anos, em que falava precisamente das mulheres do Norte, da cultura macua, e identificava alguns problemas que parecem ser exatamente os de hoje. Não avançámos nada em duas décadas?
Estamos a caminhar… Olha, vou ser sincera: eu, porque ando muito – ou andava, agora nem tanto [risos] –, sempre fui vendo outras culturas, fui dialogando com outras culturas e trazia isso para os meus livros. Recebi muita crítica de moçambicanos que diziam: “Não, Paulina, isso é superstição, isso não merece ser colocado num livro.”

A voz do povo Paulina Chiziane diz que continuará a caminhar para levar a cultura e as tradições de Moçambique mais longe

É vergonha, de alguma forma, da cultura?
Autonegação! Foram quase cinco séculos de repressão, de tal forma que, quando eu falo da libertação africana, esse “África, liberta-te!” é nesse sentido. Temos de olhar para aquilo que é nosso. Há coisas más, claro. Mas também há coisas boas. Uma das coisas boas é essa: eu fiquei muito orgulhosa quando me disseram que, no ventre da mulher, estão colocadas as sementes da eternidade (que lindo e que verdade!). Então, há um trabalho a ser feito, que temos de fazer; leva o seu tempo, sem dúvida.

Há muito tempo, dizia que, em Moçambique, a sua obra tinha três públicos: um que aceitava e lia os seus livros, outro que não a lia porque não consegue ler, e um público mais intelectual, que não a aceitava. Agora, já aceita?
Que remédio [risos], são obrigados a aceitar.

Tem noção de que está a fazer esse caminho de libertação quando conta uma história, dessas que são contadas à volta da fogueira, que fazem parte da sua construção enquanto pessoa?
Eu gosto de fazer o caminho. Agora, a medida, a dimensão que tem… fiquei surpresa. Por exemplo, vou para o Brasil, vou para Portugal e digo: “Meu Deus! Essas histórias que, no princípio, eram vistas como histórias menores, afinal, conseguem ter este alcance.” Eu sabia que, dentro de casa – neste caso, dentro do meu país –, nem todo o mundo me olhava com bons olhos. Eu não fazia comentários, preferia trabalhar, publicar dentro e fora de Moçambique. Não tinha a real noção do que estava a fazer, caminhei mesmo por gosto.

Continua a aprender com as viagens, com as pessoas que se cruzam consigo, com essas histórias que ouve em redor da fogueira? Mas agora é outra fogueira, não é?
Sim, outras fogueiras. Muito recentemente, trabalhei na produção do livro A Voz do Cárcere, com o jovem Dionísio Bahule (ver caixa). Nas prisões, eu chorava todos os dias. Foi o trabalho mais duro que fiz na vida.

Como era entrevistar as reclusas?
Fazíamos uma roda de conversa. Nem chegava a ser entrevista, era uma conversa, do género: “O que significa ser mãe na situação de reclusa?” Essa sessão foi a mais dolorosa, todos chorámos. Foi uma coisa muito forte, porque há mães com nove filhos, condenadas sei lá a quantos anos. Foi muito bonito perceber que uma mulher, quando é presa, significa a destruição total da família, porque o homem arranja outra e os meninos ficam ao deus-dará. Mas quando é o homem que vai preso, às vezes por crimes maiores, a família mantém-se cada vez mais unida, porque é a mãe que puxa por essas crianças e une – passa dificuldades, muito sofrimento, mas a família mantém-se. Foi quando aprendi, na verdade, o que significa o lugar de uma mulher na construção de uma sociedade. Cada encontro que eu tenho, seja no campo, seja na cidade, onde quer que seja, é sempre uma oportunidade para aprender uma realidade nova. E não apenas em Moçambique. Tive o privilégio de caminhar em diferentes quadrantes do mundo – e é muito interessante descobrir que a Humanidade é toda igual.

Essa é a grande mensagem, que somos todos iguais?
Todos! Estive com chineses e, numa conversa, falávamos de poligamia e de traição. Eles diziam que os homens chineses não traem as mulheres. Eu fiquei encantada. Não há traição? Como? Eles disseram: “É muito simples. Quando eu arranjo outra, trato de dizer à minha mulher que já tenho outra; então, eu não estou a trair, porque ela sabe, porque a informei.” [Risos] No fundo, as linguagens e as interpretações são diferentes, mas todos fazemos as mesmas coisas.

Falava do último livro que escreveu. Entende o impacto que é dar voz a essas mulheres? No fundo, o que a Paulina faz é isso: dá voz a essas pessoas, a essas mulheres, a essas histórias?
Foi uma oportunidade sublime que eu tive: fazer com que a voz delas seja ouvida, que os anseios delas sejam ouvidos e, acima de tudo, tornar a sociedade um pouco mais consciente em relação às pessoas que estão dentro da prisão. A responsabilidade que a sociedade tem para com esse mundo, que é um mundo dentro do mundo – a prisão é um mundo dentro do mundo… É impressionante que, a partir daquelas histórias, já começam a surgir respostas. Já começa a haver uma espécie de movimento de solidariedade social para fazer alguma coisa nesses espaços. Eu estou grata por ter feito esse trabalho.

Exemplo A caminho da Associação dos Escritores Moçambicanos, Paulina foi abraçada por várias admiradoras que pediram fotografias, desdobraram-se em elogios e agradeceram-lhe a voz ativa

Temos um problema consigo, porque não é feminista, não é romancista… Agora, com este novo livro, chamar-lhe-ão ativista. Mas porque recusa etiquetas? Se tivesse de escolher uma, conseguiria escolher?
Não, para mim, não faz sentido, porque o meu trabalho é um trabalho livre. Se eu aceito uma determinada etiqueta, tenho de ser fiel a essa marca que criei para mim. Eu gosto de fazer qualquer coisa que me apetece, que me dá na cabeça. Já escrevi poesia, contos, ensaios, já fiz um pouco de tudo; então, se eu aceitasse ser isto ou aquilo, acho que isso ia limitar a minha liberdade, é só isso. Eu gosto de vadiar [risos].

Em Moçambique, há ainda muitas pessoas que não sabem ler. Gostava que a sua escrita voltasse à oralidade, na forma como olhou para ela? Que as suas histórias ganhassem essa oralidade?
Eu gostaria de tudo, que o nosso povo precisa de tudo. O lugar da oralidade é muito importante, mesmo no mundo onde a escrita existe. Por exemplo, uma bela história do coelho e do elefante: uma coisa é ser contada através da televisão, outra coisa é ler, mas outra coisa é ser contada pela avó. Qual é o lugar do conforto, qual é o lugar do carinho, qual é o lugar da família? É a oralidade. Para mim, é uma tradição que não devia morrer. Eu gosto sempre de estar ao lado de uma fogueira, porque foi sempre assim desde a minha infância – a fogueira faz parte de mim.

É o seu lugar de conforto?
Sim, exato. Eu gosto de sentar-me com os meus amigos à volta da fogueira, é uma coisa boa – a oralidade faz falta. Se houvesse meios, podia-se também investir alguma coisa nesse sentido. A escola é importante, sem dúvida, mas com escolas destruídas, guerra disso e guerra daquilo, deslocações, o nosso sofrimento é muito grande.

Que história gostava de contar sobre Moçambique?
Não sei… Moçambique é um país enorme, com várias histórias. Mas o que eu gostaria mesmo era de falar um pouco dos nossos mitos, tem mitos tão bonitos. A minha gente, o meu povo, alguns dos nossos leitores ainda não tinham o real alcance do que é um mito na vida de um povo. Foi preciso muito trabalho, trabalho duro, sobretudo da minha parte; defender-me e, por vezes, zangar-me, para as pessoas começarem a perceber a beleza do mito. O mito não tem de ser coisa nenhuma – mito é mito, e pronto. Eu gosto dos mitos.

“A Voz do Cárcere”

A mais recente obra da escritora foi editada em Moçambique
Uma coletânea de conversas que Paulina Chiziane e Dionísio Bahule tiveram com reclusos em várias prisões moçambicanas deu corpo a este livro, que, segundo a escritora, já está a ter impacto na sociedade civil e a motivar respostas a problemas que o governo não tem conseguido resolver sozinho.